[LDP-BR] Revisao

J. Victor Martins jvdm em sdf.lonestar.org
Sexta Fevereiro 4 10:15:06 BRST 2005


> O maior problema de utilizar uma "língua louca" pra jargões, que
> somente uma comunidade pequena compreenda, é que ela tende a ser
> extinta em pouco tempo.

Não se trata de uma "língua louca", mas sim de adaptação linguística
através de recursos fonéticos. Isso ocorre entre culturas de diferentes
línguas a muito tempo e é uma ótima prática para importar termos sem
correspondentes diretos. Palavra como sanduiche, lanche, carro, garçom,
foram todas adaptações fonéticas no português brasileiro. E não é apenas 
uma pequena comunidade que compreende esses termos adaptados. Pelo uso
prático e cotidiano eles foram consagrados, ao invés de utilizar os
termos importados sem nenhuma modificação.

As adaptações surgem para termos que não possuem correspondência direta
entre duas línguas; se não há uma palavra nas duas línguas que apontam
para o mesmo conceito da realidade fica necessário criar um NOVO vocábulo,
uma palavra nova ou adaptada capaz de ser usada pelos falantes da língua
quando este desejarem se referir ao novo conceito.

(Uma outra alternativa seria usar a própria língua extrangeira para se
referir à este conceito. Isso é, importando o vocábulo. Mas essa saída
demonstra fraqueza de posição cultural. Ao invés de deixar a língua
evoluir, englobando novos vocábulos e aumentando sua capacidade de referência
aos conceitos da realidade ela passa a ser aculturada por um língua
extrangeira. Feito dessa maneira é empobrecimento linguístico.)

Nesto ponto o novo vocábulo poderia ser qualquer um, já que se trata de
um neologismo, e tecnicamente não há limites. Mas utilizando razões práticas
o novo vocébulo poderia ser algum palavra semelhante modificada, algum 
adjetivo substantivando, ou simplesmente uma adaptação (como a palavra 
sanduiche). Aí então a adaptação fonética serve como recurso.

(Vale lembrar que naturalmente essa atitude era tomada no passado para
ao importar novos conceitos extrageiros... mas últimamente as pessoas
preferem importar as palavras extrangeiras por sí só, sem qualquer adaptação.
Notamos até que pequenos termos com correspondentes não estão sendo 
traduzidos (como a palavra "mouse" ou "shell"). Praticar a adaptação 
linguística de termos de outras línguas (mesmo aquelas consideradas
"internacionais") é uma atitude que fundamenta um unidade linguística e
uma cultura forte. Não se trata somente de nacionalismo barato; uma cultura
com termos locais (mesmo que adaptados) se enriquece e se torna capaz de
desenvolver-se de forma independente (o próprio inglês age dessa forma).)

Se as adaptações fossem utilizadas como recurso n"ao haveria risco de extinção
destes termos, pois se trata de um recurso linguístico válido e capaz de
suprir a necessidade de importar novos conceitos. Ainda, por serem termos
mais hábeis no contexto cultural local (pela escrita e fonética adaptada) 
pelo USO estes neo-vocábulos se tornariam abrangentes; até por
que uma possível confusão só aconteceria se as palavras em inglês insistivamente
ainda fossem usadas.

> Um exemplo é a utilização do Tupi-Guarani
> no Brasil. A dominação portuguesa impôs que a comunicação fosse feita
> em português.

De fato é um ótimo exemplo. O Tupi-guarani morreu apartir da imposição
dos colonizadores e aceitação do colonizados (isso por causa do contexto
histórico). A atitude de aceitar termos do inglês simplesmente por
considerá-los "internacionais" não se trata de um processo que pode
levar ao enfraquecimento do trabalho cultural local? (claro, os países
que falam o inglês não IMPÕEM o uso do inglês... é pelo uso e desuso
da língua que este processo se concretiza).

> O mesmo pode-se aplicar nesse caso, com certas ressalvas
> claro. Os termos em são compreendidos e utilizados pela comunidade
> internacional. Se você utilizar esses termos, não corre o risco de
> ser mal compreendido.

Se você considerar que existe uma comunidade internacional e que esta
pratica e se comunica com uma língua comum pré-estabelecida ainda
assim não podemos considerar a adaptação linguística um atitude
equivocada. A "língua internacional" deveria ser usada para se comunicar
com a "comunidade internacional" -- localmente, fala-se o português.
O inglês se define internacionalmente porque o povo que o fala
se sobrepõe culturalmente sobre os outros -- pois possui uma econômia
mais forte, uma produção artística e cultural mais ativa. Se
o português fosse valorizado de forma apropriada poderiamos conseguir
elevar nossa produção cultural de forma mais independente ao invés de ficar
importando termos "internacionais".

> O problema de utilizar termos aportuguesados é: quando se faz uma procura
> mais ampla sobre determinado assunto em que, muitas vezes a língua não 
> tem tanta importância, mas sim o resultado esperado;

Isso é claro que depende do resultado esperado. Se alguém fizer uma busca e
estiver disposto a encontrar documentação na "língua internacional" ele
deveria utilizar a "língua internacional" em sua busca; o contrário, se
ele procura documentação local, bastava utilizar os termos adaptados.

> o termo aportuguesado não é encontrado em outros documentos que não
> aqueles que você já possui.

Se todos utilizazem essa prática não aconteceria dessa forma. Para uma
padronização bastava que houvesse ATITUDE e POSIÇÃO de tradutores (nos
da equipe de tradução LDP-BR, por exemplo) para que aos poucos padrões
fossem sendo formados. 

> Enquanto isso, a pesquisa ao termo "internacional" conduz a um número maior 
> de documentos e possivelmente a um resultado melhor.

Um "grande número de documentos" se a maioria destes forem todos
escritos na "língua internacional"; sendo radical, nesse caso, não haveria
nem necessidade de traduzir documentos (LDP-BR não tem função) se fosse
para os documentos serem escritos numa determinada língua internacional.
Se os esforços de tradução forem recompensados, e termos forem agregados
a cultura por adaptção, não haveria esse tipo problema.

> >) Acho q aportuguesar nunca é válido pois acabam sendo
> >) criadas palavras sem sentido real. Acho que o melhor é
> >) usar um termo existente na língua que se aproxime mais
> >) à ascepção desejada.

Tentar buscar termos existentes na língua que se aproxime mais
do conceito original é um atitude extremamente boa; o problema
acontece na escolha destes. Em muitos casos não há termos
capazes de descrever plenamente novos conceitos. Isso é, uma
nova palavra deve ser inserida no vocabulário para se referir
a este (vamos utilizar como exemplo a palavra "hacker").
Se não há correspondente na língua para se referir a um conceito
qual seria a nova palavra que fará referência à este? Poderia
ser qualquer uma, se olharmos do ponto de vista técnico, mas não
do ponto de vista prático. Temos a opção de utilizar o próprio
termo extrangeiro, mas essa é uma prática não muito inteligente,
como já foi exposto.

A saída mais prática é adaptar fonéticamente a palavra. É quase
como utilizar o termo original, mas agora com a cara da língua
local. Isso aconteceu, como eu disse, com várias palavras no
passado.

> Ainda se todos utilizassem a mesma regra de aportuguesamento (o que
> infelizmente não ocorre), perderia-se a referência ao contexto do
> termo, o que pode causar dores de cabeça maiores ainda.

A regra de aportuguesamento é um padrão. Bastava que todos agissem
com o mesmo "espírito", ou intenção, que o padrão iria surgir
naturalmente. A própria cultura do Unix se padroniza dessa forma:
todos tem a mesma intenção presente, mesmo que nem todos tenham
soluções iguais... os padrões se formam naturalmente.

> A distinção apenas escrita causa ainda mais problemas. Imagine-se
> tentando explicar que o hacker (termo difundido, embora mal
> compreendido) que vc está descrevendo é o mesmo ráquer que está
> escrito.

Essa distinção de conceitos que eu citei não é a principal intenção
da adaptação fonética, tanto que na minha opinião outros termos como
*becape* e *desaine* deveriam ser aportuguesados dessa forma mesmo que
não se tenha nenhum interesse em destingui-los de outros termos. Essa
distinção na verdade surgiria meio como um efeito colateral. Como hoje
a palavra "hacker" está fortemente associada ao conceito errôneo apartir
do momento que a adaptação surgir de pessoas que conhecem o conceito 
fiél e verossímil qualquer busca por *ráquer* ou *raqueres* iria apontar
para fontes e documentos em português que explicam da forma justa (pois
a tradução foi feita por pessoas que entendem o que significa "hacker") 
e verdadeira.

A confusão só ocorrerá, novamente, se alguém buscando informação
em português utilizar termos em inglês. Ráquer seria a referência
em português do singificado da palavra inglês "hacker". Não se
trata de um novo termo, mas de tradução.

> A confusão começa a se instaurar, porque não existe um
> dicionário de termos com correspondência biunívoca para as línguas.

Claro que não. Traduções são feitas pela prática e uso; termos
correspondentes são traduzidos diretamentes pela prática. Termos
sem correspondência são traduzidos pela conveniência.
Se a atitude de aportuguesar, de esquecer o inglês para uso
local na nossa cultura, for praticada em pouco tempo teriamos
documentação, padrões de tradução e referências em português sólidas o
suficiente para enriquecer a língua, e não torná-la uma cópia
de outras línguas.

> >) Outro ponto é que distinguir-se-á "Ráquer" de "Hacker"
> >) apenas na escrita, assim, pela fala as conotações
> >) indesejáveis continuarão.

Isso porque as buscas são feitas pela grafia... de fato,
ao falar não há distinções. Isso só faz sentido em documentos
etc. Mas como eu disse, essa distinção só seria um efeito
do uso do termo aportuguesado, e não o fim principal da tradução.

A tradução de termos sem correspondência direta do inglês para
o português através da adpatação fonética é um recurso final,
um opção última, mas fiel a unidade linguística. Essa atitude
não interfere na organização de documentos nem na busca por
informação, como foi exposto. Acredito que utilizar uma palavra
extrangeira por sí só, sem adaptação, empobrece a língua e não
se trata de uma saída inteligente.

(Desculpem-me a demora; estava viajando... :-D)
-- 
J. Victor Martins @ SUPER DIMENSION FORTRESS


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